Oficina Literária

Oficina Literária é uma disciplina do TEL ministrada pela professora Elizabeth Hazin

quarta-feira, 25 de março de 2009

Texto da Juliana

Emile

Já na entrada pode-se sentir o cheiro do cupim por entre madeiras molhadas de um bolor sem cor e contínuo. O numero 53 na porta é de um enferrujado cor de cobre, quase lembra a terra seca da casa de mamãe. A tentativa inoportuna de viver da Samambaia traga o último suspiro de aurora do corredor estreito e denuncia minha suspeita de que Emile já não sai de casa a dias.

Minha entrada é de um silêncio misturado, não enxergo nada além de um capacho torto que marca o sinteco gasto pelos anos. Emile está imóvel frente a um raio fraco de sol que entra pela janela – Traga-me um copo d’água minha irmã. – Consigo ver papai naquele rosto pálido e me pergunto se Sebastian retorce na cova em dias como este. Emile mora com simplicidade e o bege sufoca quando respiro. – Emile, Aurora estaria desesperada em morar aqui. – Emile nem vira o rosto e bebendo o copo d’água levanta as sobrancelhas como num gesto de indiferença. Dali se passavam exatos 7 anos que Aurora falecera e a ausência de sua esposa matava meu irmão lentamente.

Dei-lhe um beijo na testa e o ajudei a levantar-se. Emile já tinha dificuldades em andar e agravava isto a cada dia recusando-se a fazer exercícios recomendados pelo medico, como caminhar na Pampulha ou ir á missa aos Domingos, Emile tornara-se menos religioso e não aceitava a bondade de Deus, era um homem velho que exalava um pretume fétido de um século passado.

Não me orgulho de ser distante, nos meus 68 anos me considero ainda disposta, sobretudo frente a meus filhos e marido que prezo por serem castos frente à essa nostalgia indiscreta de meu irmão sobrevivente. Hoje é 2 de setembro de 1938 e me comprometi em levar Emile para visitar sua filha Mercedes no Rio de Janeiro. Não, não pretendo ir até lá, meus Réis deram apenas para um assento na Panair, Emile precisa sair de casa.

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